Depressão: Como transformar a dor em sentido de viver?


Em minha trajetória clinica já acompanhei diversos casos de depressão, desde as brandas até as severas. Como psicanalista, acredito que todo sintoma deve ser analisado e compreendido em profundidade para tratar as causas e assim assegurar uma melhora efetiva e boa qualidade de vida.

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Ninguém espera ter depressão. É uma doença que vai acontecendo aos poucos, através do acumulo de impressões/memórias de sofrimento, descontentamento, desprazer. E um dia, ela estoura através de seus sintomas mais conhecidos: crise de choro, isolamento social, insônia, perda de vontade de viver, perda de vontade de seguir a rotina, sensação de vergonha, impotência.

Um fato interessante é que muitas pessoas que acharam que nunca iam ficar deprimidas espantam-se na doença. Em sua dor.. E se arrependem de julgarem outros, do tempo que faziam piadas, não paravam para pensar no quanto é algo sério. Então, nada como sentir na própria pele.

A importância de buscar ajuda especializada esta ligada ao descaso social e cultural em relação aos cuidados emocionais. Muitas pessoas deixam de buscar ajuda ou optam por esconderem a doença devido ao sentimento de vergonha e falta de motivação para buscarem ajuda profissional. Isso aumenta muito o tamanho do problema e acarreta um sofrimento que poderia ter sido menor. Não se melhora sozinho e nem com apoio de pessoas que minimizam a doença.

Auto ajuda para depressivos tem efeito contrário. Acaba piorando ainda mais os sintomas, podendo levar ao desespero.

É importante ressaltar que a depressão não é apenas uma tristeza e precisa ser tratada corretamente. De acordo com a Organização de Saúde (OMS), a depressão afeta 350 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, cerca de uma em cada dez pessoas sofrem desse mal. Ao contrário de um sentimento de pesar passageiro, a depressão não passa com o tempo e os sintomas aumentam com o tempo, culminando no isolamento social e perda da vontade de viver. Por isso, quanto antes buscar ajuda especializada melhor.

A depressão pode ser entendida como uma manifestação inconsciente das emoções que constituem os pilares da nossa consciência e que permitem ao individuo ver a si mesmo e além de si mesmo. Desde a mais primitiva infância e nas relações familiares são construídos desejos, valores que servem de base à vida afetiva. Ou seja, envolvem os potenciais para amar, sofrer, relacionar-se, fazer escolhas, ser feliz, entre outros.

Entre os sintomas, destaca-se pelo DSM-IV: perda do interesse, ruminação mental, insônia ou aumento de sono, apatia, diminuição ou amento do apetite, sensação de vazio, falta de desejo sexual, diminuição no nível de energia, sentimentos de culpa, solidão, negativismo, entre outros. Em último estágio pode levar a comportamentos antissociais e até o suicídio.

Em uma sociedade voltada ao materialismo e ao consumo, aumenta-se a individualidade e busca de satisfação imediata dos desejos. Nessa dimensão a depressão atinge muitas pessoas, aumentando a cada dia, pois não estimula o contato com o mundo emocional, empobrecendo as relações e facilitando o desenvolvimento das doenças. Viver não depende somente de um bom emprego ou de muito dinheiro, que também são importantes. É preciso ir além: na sutileza das relações, paz no coração, estar consciente de si mesmo.

A lógica inconsciente de toda doença é despertar o individuo para seu mundo interior. A construção da auto estima, do amor próprio e sentidos de vida são a melhor prevenção e tratamento na depressão. Isso ocorre porque esses elementos facilitam transcender as próprias limitações e superar os desafios.

Para renovar atitudes de desprazer em prazer é preciso examinar e reavaliar sentimentos e pensamentos que moldam a nossa vida, o que é um foco terapêutico principal, desde que estejamos dispostos a reconhecer o sofrimento e se dispor a escuta-lo e assumir um compromisso com sua mudança.

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