Alcoolismo na família: suas marcas emocionais 1


O alcoolismo é uma doença grave, que causa vários transtornos afetivos para o alcoólico e principalmente, sua família. E também é e um problema bastante atual entre em os jovens, que consumem de forma desenfreada, muitas vezes misturando drogas em conjunto e justificando o uso por sociabilidade ou “aumentar o prazer ao máximo”.

Fuga da realidade

Para entender o alcoolismo e vícios preciso falar da fuga da realidade. A maioria dos alcoólicos tem grandes dificuldades emocionais, traumas de infância, baixa auto estima, pouca habilidade de resolução de conflitos, transtornos de ansiedade. Normalmente iniciam o consumo de álcool na adolescência e vão tornando o consumo habitual, perdendo a noção de quantidade e senso da realidade, beber muito ou como um habito torna-se normal para o alcoólatra.

Gatilhos Emocionais como não gostar dos estudos, do trabalho, não ter um proposito de vida, vínculos familiares frágeis, insatisfação com a vida ou ate a busca pelo refugio no álcool devido as sensações corpóreas vão manter instalar e manter o vicio.

Alcoólicos em recuperação ou em Sobriedade, relatam sua questão pessoal com o vicio, o porque de beberem tanto, do que fugiam emocionalmente. Com auto conhecimento e psicoterapia a pessoa vai retomando o controle sobre si mesmo, sobre a própria vida e decidindo mudar seu rumo.

A fuga da realidade chega em extremos. Normalmente no que acompanho no consultório, as decisões por buscar tratamento são após acidentes gravíssimos com morte, sair a foto ou vídeo bizarro da pessoa embriagada e se dar conta pela vergonha,  divorcio ou pedido de separação, vergonha social, associar álcool a drogas ou comportamentos promíscuos, perdas financeiras pelo vicio.

Caos, Insanidade e Auto destruição

Filhos que tiveram genitores alcoólicos relatam profundos traumas, vergonha, medo, conflitos com brigas, tentar proteger o alcoólico de si mesmo ou agredir pessoas. Muitas são as historias de um genitor chegar em casa bêbado já brigando com todo mundo. Ou caso algo desagradasse, como não gostar de uma janta ou de uma decisão que não foi consultado, começam a beber a quebrar a casa toda, e a família se envolve tentando diminuir a destruição, o caos se instala.

Tambem tem aqueles alcoólicos que só bebiam em casa, isolam-se e bebiam, sem comportamentos violentos mas totalmente ausentes afetivamente. São aqueles alcoólatras de comportamento frio, debochado, viciado em causar incômodos e reclamações. Não se pode contar com eles, são irresponsáveis e perigosos. Muitos filhos adultos que tiveram pais alcoólatras neste perfil tem pavor de ouvir barulho de gelo no copo e nojo de bebidas alcoólicas.

Muitas mulheres alcoólicas passam o dia bebendo em casa, acrescentando vodca em tudo. A família percebe, os conflitos são diários, os danos no relacionamento duram a vida toda.

Em relatos de sobriedade, os pacientes dão se conta do quanto se enganavam, a destruição, falências, decepcionar a si mesmo e a família. As vezes tentam diminuir as quantidades mas se perdem na tentativa de controlar o que ficou incontrolável. Por isso a sobriedade passa pela decisão de buscar ajuda para sair do vicio: psicólogo psicoterapeuta, psiquiatra e grupo de apoio de sobriedade.

Aspectos Característicos do Alcoolismo (Cid 11).

*Forte impulso interno a usar
* Incapacidade para controlar o uso
* Aumento da prioridade cada vez mais elevada do uso em detrimento de outras atividades.
* Persistência do uso apesar das consequências nocivas ou negativas.
* Tolerância aos efeitos
* Sintomas de abstinência após a interrupção ou a redução do consumo.
* Uso repetido de álcool ou de substancias farmacologicamente semelhantes para prevenir ou aliar sintomas da abstinência.

Se você que esta lendo esse texto tem problemas com álcool ou outras drogas, acredite: encontrar uma nova maneira de viver, mais significativa e verdadeira é possível. Procure/Aceite ajuda.

Consumo de álcool e drogas entre Jovens

O consumo do álcool inicia cada vez mais cedo e sendo tido como socialmente aceitável é bastante preocupante para a geração atual e sociedade. As vezes o consumo já vem na própria família que tem o álcool como um “antidepressivo” ou “relaxante”, o jovem segue essa linha de auto sabotagem, falta de amor próprio, que já esta no sistema familiar.

Outras vezes, os jovens entram nos vícios pelos círculos de amigos, amizades, influenciados pela mídia/cultura de bebida ser sinônimo de diversão, busca do prazer imediato sem pensar nas consequências, e acham que “não da em nada”, “todo mundo usa”.

Felizmente alguns pais atentos percebem essas influencias negativas ou ate encontram drogas nos pertences dos filhos e isso gera reflexão e dialogo para tentar achar o caminho do equilíbrio novamente. Álcool, drogas e sexualidade precoce são motivos que levam muitos pais a procurarem um bom psicoterapeuta para seus filhos e orientação familiar.

Família é envolvimento, cuidado, prestar atenção, convivência, dialogo, exemplos, atitudes rápidas diante de problemas. Felizmente tenho a honra de atender famílias comprometidas com a terapia, vendo resultados, fazendo sua parte e em especial recuperando o psicológico do membro que estava frágil ou perdendo sua essência/identidade no social.

Os danos maiores acontecem quando o vicio esta “invisível” para os familiares. Ou são pais ausentes, ou usuários também. Se o padrão de fuga emocional estiver instalado e os vícios forem visto como normais, as consequências serão gravíssimas e irrecuperáveis. Como os casos de acidente, suicídio, assassinato, mortes precoces por doenças causadas pelos vícios. Fora a gravidade do relacionamento abusivo, que pode envolver desde abuso emocional ate abuso sexual.

Alcoolismo nas relações conjugais

Muitos alcoólicos buscam ajuda por um pedido de separação ou divorcio.  Em um relacionamento saudável espera-se atitudes agradáveis e amorosas e um parceiro. Com o amor adoecido, o sistema familiar gera brigas e conflitos. Criar filhos nesse ambiente serão pessoas que crescem sem acreditar no amor,  sem construir uma auto estima para tomar boas decisões para si mesmo.

Cônjuges de alcoólicos constroem formas de negação e evitação do problema. Acreditam nas promessas de mudanças e nos pedidos de desculpa por um tempo, até darem-se conta que não adianta querer mudar o outro,  a mudança precisa vir de dentro.

Pessoas que cresceram convivendo com o alcoolismo terão dificuldades de auto estima em sua vida adulta e o maior desafio será a construção de um relacionamento amoroso duradouro e saudável.

é possível perdoar um familiar alcoolista?

Muitas pessoas me perguntam isso e sempre respondo que vai depender de cada caso. Depois dos danos feitos, o relacionamento vai se modificando, as emoções ficam intensas. Muitos familiares cortam relação, devido ao alcoólico virar um transtorno financeiro e não se ajudar.

A família busca ajudar a pessoa que sofre da dependência de todas as formas porém, o sujeito nem sempre concorda em ser ajudado. A família, movida por sentimentos de esperança, pena, culpa acaba por levar a situação por muito tempo, ou até, por toda a vida.

O difícil é lidar com as marcas e feridas emocionais deixadas pelo alcoolismo. Principalmente para quem sofreu o abuso. Se auto perdoar e talvez perdoar o outro é um processo de cada um. Acredito como psicoterapeuta que o principal é a pessoa recuperar-se emocionalmente, ficar bem com sua vida e posteriormente analisar os relacionamentos.

Alcoólicos em sobriedade as vezes buscam o perdão de seus familiares. Lembro uma vez, um conhecido que eu estimava bastante, mas não conhecia os detalhes do seu passado. Comigo era sempre responsável, respeitoso, humilde e um dia me pediu uma orientação por eu ser psicanalista/psicóloga. Ele me contou sua historia, que era casado e tinha filhas, era bem sucedido mas um dia mergulhou no alcoolismo e acabou contraindo dividias, perdendo tudo. Foi expulso de casa, mudou de cidade e refez sua vida. Buscou ajuda para ficar em sobriedade. Passou-se 30 anos, e ele me disse que via as filhas nas redes sociais e me perguntou o que eu achava dele fazer contato para pedir perdão a elas. Eu lembro que o orientei de forma profissional, que ele poderia fazer contato, nesse sentido de pedir perdão, mas respeitar o espaço delas, a resposta e não invadir a privacidade delas.

Um tempo depois ele me agradeceu e me disse que retomou o contato com uma das filhas. Que ela aceitava seu perdão e ate o convidou para visita-la. E ele estava muito feliz. Então o perdão é algo a ser trabalhado em médio, longo prazo. O auto perdão vem primeiro e não é fácil.


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Um pensamento em “Alcoolismo na família: suas marcas emocionais

  • Edson

    Parabenizo pelo tema, é um assunto muito importante e deveria ser mais abordado na sociedade. Minha familia tem tres gerações de alcoolismo e drogas, as marcas ficam para toda a vida, é muito triste ver um familiar destruir-se pelo alcool e não poder ajudar.